2025 sob ataque: o que aprendemos com um ano decisivo para a cibersegurança?

Matéria escrita pela pesquisadora Michele Nogueira, do ICoNIoT e do Departamento de Ciência da Computação da UFMG, e publicada originalmente no blog Horizontes, da SBC, em 26 de dezembro de 2025.

Nos preparativos para 2026, senti oportuno olhar para trás e refletir sobre o caminho percorrido em 2025 pela coluna Atualidades em Cibersegurança da revista Horizontes da SBC. Mais do que revisitar as matérias publicadas ao longo de ano, esse exercício de retrospectiva despertou a vontade de conectar esses textos e destacar os principais acontecimentos que marcaram a cibersegurança no Brasil e no mundo. O resultado dessa retrospectiva está nos próximos parágrafos. Espero que a leitura inspire reflexões e perguntas. Aproveito para desejar a todas e todos um excelente 2026. Que sigamos em frente, criando, ensinando e inovando para a construção de um mundo digital cada vez mais seguro.


Posso dizer que 2025 consolidou-se como um ano emblemático para a cibersegurança no Brasil e no mundo. Em um cenário marcado pela aceleração da transformação digital, pela popularização de sistemas baseados em inteligência artificial, pelo avanço das discussões sobre computação quântica e pela crescente dependência de infraestruturas digitais críticas, a cibersegurança deixou definitivamente de ser um tema restrito a especialistas e passou a ocupar o centro do debate público, político e econômico. Foi nesse contexto que a coluna Atualidades em Cibersegurança da revista Horizontes da SBC publicou, ao longo do ano, uma série de dez matérias que buscaram traduzir temas complexos em reflexões acessíveis, conectadas à realidade brasileira e alinhadas às tendências globais.

A retrospectiva de 2025 começa com um olhar para o fator humano e para o mercado de trabalho. A matéria sobre carreiras em cibersegurança evidenciou um setor em expansão, com déficit global de profissionais qualificados e oportunidades crescentes em áreas como análise de riscos, resposta a incidentes, privacidade de dados e segurança de sistemas baseados em IA. Mais do que números, o texto destacou a necessidade de formação sólida, interdisciplinar e contínua, capaz de acompanhar um campo que evolui em ritmo acelerado. A matéria apontou as trilhas principais nas carreiras em cibersegurança. A organização em trilhas oferece uma visão estruturada da área, principalmente àqueles interessados em iniciar uma carreira em cibersegurança.

Na sequência, a coluna voltou-se para um ator central da economia brasileira: as pequenas e médias empresas. Ao discutir o impacto da cibersegurança nesse segmento, a matéria de março mostrou como ataques cibernéticos deixaram de ter como alvos exclusivos as grandes corporações. Em 2025, os golpes de ransomware, as fraudes digitais e os vazamentos de dados afetaram cada vez mais negócios locais, cooperativas, startups e prestadores de serviço, revelando a urgência de políticas de cibersegurança proporcionais à realidade dessas organizações. Infelizmente, os setores mais visados hoje continuam sendo o financeiro, a saúde e o governo. Vários exemplos de ataques a esses setores foram registrados ao longo deste ano.

Outro eixo fundamental abordado ao longo do ano foi a diversidade e a inclusão. A reflexão sobre a participação das mulheres na cibersegurança expôs um paradoxo persistente. Um setor repleto de oportunidades, mas ainda marcado por desigualdades estruturais. Em um momento em que o mundo discute justiça algorítmica, ética em IA e governança digital, a presença de diferentes perspectivas tornou-se não apenas uma questão social, mas também um fator estratégico para o desenvolvimento de soluções de cibersegurança mais robustas e representativas. A matéria publicada no final de março marcou a comemoração do mês das mulheres e também estava alinhada com as ações do projeto METIS: Mulheres de Exatas em Cibersegurança do CNPq.

À medida que o ano avançou, a coluna ampliou o olhar para o plano macro, discutindo a importância das políticas globais em cibersegurança e inteligência artificial. Em 2025, debates internacionais sobre regulação da IA, soberania digital, proteção de dados e segurança de infraestruturas críticas ganharam força, com impactos diretos no Brasil. A matéria de abril ressaltou como decisões tomadas em fóruns multilaterais, blocos econômicos e acordos internacionais influenciam o ecossistema nacional de inovação, pesquisa e cibersegurança. A matéria também ressaltou as atividades do Grupo de Trabalho do BRICS sobre segurança e uso de tecnologias de informação e comunicação no contexto da Parceria BRICS para a Nova Revolução Industrial (PartNIR).

Nesse mesmo movimento de antecipar o futuro, a matéria de maio trouxe uma discussão sobre computação quântica e cibersegurança, revisitando tanto promessas quanto riscos, aproveitando o ensejo de reflexões promovidas pela UNESCO no ano internacional de Ciência e da Tecnologia Quântica. Se, por um lado, a computação quântica abre novas fronteiras para ciência e tecnologia, por outro, ela desafia os fundamentos da criptografia atual. Em 2025, o tema deixou de ser apenas teórico e passou a integrar agendas estratégicas de governos e empresas, reforçando a necessidade de transição para soluções criptográficas pós-quânticas.

A governança também ganhou destaque com a análise da cibersegurança na era do 6G e das cidades inteligentes. A perspectiva de redes ultraconectadas,  dos sistemas autônomos e da integração maciça entre mundo físico e digital enfatizou questões críticas sobre privacidade, resiliência e responsabilidade. A matéria de junho mostrou que a segurança dessas infraestruturas não pode ser pensada apenas do ponto de vista tecnológico. Ela exige modelos de governança capazes de articular poder público, setor privado, academia e sociedade civil.

A relação entre inteligência artificial e cibersegurança foi outro tema central na matéria de julho de 2025. Em um contexto de competição tecnológica global, a IA apareceu simultaneamente como ferramenta de defesa e como vetor de novos ataques. A matéria explorou como países e organizações que conseguem integrar IA de forma responsável às suas estratégias de cibersegurança tendem a ganhar vantagem competitiva, enquanto a ausência de governança adequada amplia riscos sistêmicos. No cenário brasileiro, a discussão sobre a Estratégia Nacional de Cibersegurança – E-Ciber 2025 marcou um ponto de inflexão. A matéria de agosto destacou a noção de soberania digital e o caráter coletivo da cibersegurança, enfatizando que a proteção do espaço digital nacional depende de ações coordenadas, investimento em ciência e tecnologia, formação de talentos e conscientização da sociedade.

Encerrando o ano, dois textos trouxeram reflexões complementares e profundas. A matéria de outubro explorou como o estudo da personalidade e do comportamento humano pode fortalecer a defesa cibernética, evidenciando o papel da engenharia social, da psicologia e da ciência de dados na prevenção de ataques. A matéria de novembro, ao analisar o roubo ao Museu do Louvre, mostrou como falhas básicas de cibersegurança continuam presentes mesmo em instituições renomadas protegidas por empresas de cibersegurança amplamente conhecidas. As últimas reflexões reforçam uma lição central para 2025, a lição que tecnologia sem cultura de cibersegurança é insuficiente.

Ao longo de suas dez matérias, a coluna Atualidades em Cibersegurança acompanhou e interpretou um ano intenso, marcado por avanços tecnológicos, tensões geopolíticas, novos marcos regulatórios e incidentes emblemáticos. A coluna trouxe esses temas de uma forma didática, visando serem acessíveis a todos. Mais do que uma retrospectiva, esse conjunto de textos constrói uma narrativa clara. A cibersegurança é hoje um pilar da soberania, da inovação e da confiança digital. Olhar para 2025 é, portanto, reconhecer os desafios enfrentados, valorizar os aprendizados construídos e reforçar a necessidade de uma atuação contínua, colaborativa e baseada em ciência para os anos que virão.

Os textos de todas as matérias publicadas na coluna Atualidades em Cibersegurança estão disponíveis clicando no link.

Boas leituras!

Feliz 2026 a todos!

Dr. Michele Nogueira fará uma palestra no workshop do ICoNIoT em 15 de dezembro

A Dr. Michele Nogueira, pertencente ao comitê gestor do ICoNIoT e coordenadora da linha temática de segurança do INCT, fará uma palestra intitulada ‘Resiliência Cibernética Orientada a Dados: Uma Faca de Dois Gumes para Segurança e Privacidade’, dentro da programação do workshop do INCT ICoNIoT que acontece nos dias 15 e 16 de dezembro. A apresentação da pesquisadora acontece no dia 15/12.

Resumo:

Em um mundo cada vez mais conectado e rico em dados, a resiliência cibernética não se resume mais a suportar falhas — trata-se de se adaptar, aprender e se recuperar em tempo real. No centro dessa evolução estão os dados: vastos, dinâmicos e cada vez mais essenciais para a tomada de decisões em sistemas seguros e confiáveis. Mas, embora as estratégias orientadas a dados tenham aberto novas fronteiras na detecção de ameaças, na adaptação de sistemas e na predição de anomalias, elas também introduziram novas vulnerabilidades. Desde o envenenamento de conjuntos de treinamento em modelos de aprendizado de máquina até vazamentos de metadados em logs de sistema, os dados podem fortalecer tanto defensores quanto adversários. Esta palestra explora o paradoxo da resiliência orientada a dados, como os conjuntos de dados que permitem defesa adaptativa e tolerância a falhas também podem expor os sistemas a novos vetores de ataque e violações de privacidade. Com base em estudos de caso reais, insights de pesquisas e lições, examinaremos as compensações inerentes à construção de sistemas resilientes por meio de dados.

Vice-coordenador do ICoNIoT faz palestra sobre cibersegurança na TechZone da COP 30

O pesquisador Eduardo Cerqueira, da UFPA e vice-coordenador do INCT ICoNIoT, palestrou nesta quinta-feira, dia 13 de novembro, na TechZone da COP 30. Em sua apresentação, ele ressaltou a importância da segurança cibernética na era digital, que é uma das linhas de pesquisa do nosso INCT.

A Tech Zone, que começou no dia 10/11 e está acontecendo até esta sexta dia 14 tem como propósito ampliar o espaço de diálogo e de demonstração de soluções concretas voltadas à transição para uma economia verde e digital.

Mais do que um evento técnico, a iniciativa se propõe a ser uma plataforma de convergência entre pesquisadores, empreendedores, governos, cooperativas, startups e instituições internacionais, estimulando a troca de experiências e o fortalecimento de parcerias estratégicas.

Ao promover discussões e apresentações sobre tecnologias emergentes, inovação social e saberes tradicionais, a Tech Zone complementa a agenda oficial da COP 30, traduzindo as pautas globais em ações e oportunidades concretas para a Amazônia.

Educação para a cibersegurança

A educação é um elemento importante para a garantia da cibersegurança, e a capacitação de professores e gestores é um dos eixos destacados na E-Ciber 2025.

O documento nacional sobre o tema, elaaborado pelo Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), destaca que é essencial que sejam fortalecidas a educação e a conscientização em cibersegurança, desenvolvendo uma cultura sustentável, enraizada na sociedade.

Devem ser difundidas noções de segurança desde a educação básica até a formação executiva. Para isso, cursos e programas de qualificação são essenciais; eles contribuem para alinhar a estratégia de negócios à gestão de riscos digitais — essa é, inclusive, uma exigência já estabelecida pelo Banco Central em resoluções recentes.

Saiba mais sobre a E-Cibee, a Estratégia Nacional de Cibersegurança:

https://www.gov.br/gsi/pt-br/assuntos/seguranca-da-informacao-e-cibernetica/estrategia-nacional-de-ciberseguranca-eciber

Cibersegurança: os pontos centrais da nova proposta do Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber)

O Comitê Nacional de Cibersegurança é um colegiado presidido por um representante do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, e composto por 14 representantes de órgãos da administração pública federal, por 1 representante do Comitê Gestor da Internet no Brasil e por 9 representantes de entidades da sociedade civil, sendo entre elas 3 entidades com atuação relacionada à segurança cibernética ou à garantia de direitos fundamentais no ambiente digital, 3 instituições científicas, tecnológicas e de inovação relacionadas à área de segurança cibernética e 3 entidades representativas do setor empresarial relacionado à área de segurança cibernética.

Cabe ao Comitê Nacional de Cibersegurança orientar a atividade de cibersegurança no País, bem como avaliar e propor medidas para o incremento da segurança cibernética no País, dentre outras competências (fonte: Gov.br). O comitê, hoje, reúne 25 instituições, incluindo sociedade civil, comunidade científica e, pela primeira vez, o setor empresarial.

A proposta de 2025 traz como pontos principais estes abaixo:

. Definição de uma governança nacional de cibersegurança, coordenada pelo CNCiber, com mecanismos de regulação, fiscalização e controle.

. Fortalecimento da soberania tecnológica, estimulando desenvolvimento nacional e reduzindo dependência de soluções estrangeiras.

. Inclusão e diversidade, com atenção especial a grupos vulneráveis — crianças, adolescentes, idosos e pessoas neurodivergentes.

. Promoção da maturidade cibernética, com padrões de certificação e níveis de segurança.

. Inovação em Pequenas e Médias Empresas (PMEs) e startups, reconhecendo que setores críticos como telecomunicações, finanças e transportes dependem fortemente de empresas privadas, muitas vezes frágeis diante dos ataques.

Leia o artigo de Michele Nogueira sobre os desafios mais recentes da cibersegurança no Brasil.

 

Cibersegurança: você já parou para pensar sobre a responsabilidade de cada um?

Sim, mesmo quem é leigo em segurança digital, se vive conectado à internet tem um papel importante quando se trata de se proteger nesse ambiente. Na segurança digital, se um elo da corrente falha, todos falham.

A nova Estratégia Nacional de Cibersegurança (E-Ciber 2025), publicada em 4 de agosto deste ano, não fala apenas para o Estado: ela convoca todos os setores da sociedade —  governos, empresas, universidades e cidadãos — para refletirem e atuarem em conjunto pela soberania digital do Brasil.

Esses pontos são destacados pela pesquisadora Michele Nogueira, que é da Universidade Federal de Minas Gerais e faz parte do comitê gestor do INCT ICoNIoT, além de ser a coordenadora da linha temática de segurança dentro do nosso instituto.

Leia o texto da pesquisadora neste link

 

 

CCSC Research Lab é inagurado na UFMG

O laboratório é coordenado pela pesquisadora do ICoNIoT Michele Nogueira

No dia 13 de agosto de 2025 foi inaugurado no Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais o CCSC Research Lab, Laboratório de Ciência em Cibersegurança e Inteligência Artificial. O laboratório é coordenado pela pesquisadora Michele Nogueira, membro do comitê gestor do INCT ICoNIoT, em colaboração com os professores Aldri Santos e Adriano Veloso.

O CCSC Research Lab tem como foco o desenvolvimento de soluções inovadoras na interseção entre #Cibersegurança e #IA, objetivando tornar sistemas digitais mais seguros, resilientes e confiáveis.

A iniciativa tem linhas de pesquisa voltadas para segurança cibernética e defesa de rede, inteligência artificial para segurança, privacidade e proteção de dados, sistemas seguros e segurança da IoT, entre outros focos.

Para saber mais, acesse o site do laboratório:

https://ccsc.dcc.ufmg.br/